ENTERRADO COM A MÃO PARA FORA
Pr. Pedro R. Artigas
Igreja Metodista
Na pressa dos dias, quando o barulho das ruas parece engolir até os pensamentos mais íntimos, há um texto antigo que ressoa como um sussurro: Isaías 42.1-4: ““Eis o meu servo, a quem sustento, o meu escolhido, em quem tenho prazer; porei sobre ele o meu Espírito, e ele trará justiça às nações. Não gritará, nem clamará, nem erguerá a sua voz nas ruas. Não quebrará o caniço ferido, nem apagará o pavio fumegante. Com fidelidade fará justiça; não mostrará fraqueza nem se deixará ferir, até que estabeleça a justiça na terra. Na lei dele as ilhas porão a sua esperança”. Ali, o profeta descreve um Servo escolhido por Deus, alguém que não levanta a voz nas praças, que não quebra a cana já rachada, nem apaga o pavio que ainda fumega. É uma imagem de delicadeza e firmeza, de mansidão que não se confunde com fraqueza, mas que se revela como força capaz de sustentar o mundo.
Vivemos em tempos em que a justiça é frequentemente associada ao grito, ao confronto, ao espetáculo. Quem não se mostra, quem não se impõe, parece condenado ao esquecimento. Mas Isaías apresenta outro caminho: o da presença silenciosa, que não precisa de alarde para ser transformadora. O Servo não vem com discursos inflamados, mas com gestos que restauram. Ele não despreza o que está por se apagar; ao contrário, cuida, reacende, dá nova vida.
Essa imagem me faz pensar nas pessoas que passam despercebidas, mas que sustentam o cotidiano com pequenos atos de bondade. A professora que insiste em acreditar no aluno desmotivado, o vizinho que compartilha o pão sem esperar nada em troca, o médico que escuta mais do que receita. São figuras que não aparecem nas manchetes, mas que carregam em si o espírito do Servo: não esmagam o fraco, não desprezam o quase nada, mas transformam o pouco em possibilidade.
O texto fala também de justiça. Não a justiça fria das leis, nem a vingança disfarçada de reparação, mas uma justiça que se estabelece como esperança para os povos. É curioso: Isaías diz que esse Servo não se cansará nem desanimará até que a justiça se firme na terra. Há aqui uma perseverança silenciosa, uma constância que não depende de aplausos. É como o trabalho do agricultor que, sem pressa, prepara a terra, lança a semente e espera o tempo da colheita.
Na crônica da vida, quantas vezes nos sentimos como a cana rachada ou o pavio quase apagado? O peso das responsabilidades, as frustrações acumuladas, os sonhos que parecem se desfazer. E, no entanto, Isaías nos lembra que há alguém que não nos descarta, que não nos considera inúteis. O Servo cuida do que resta, valoriza o pouco, transforma o quase nada em recomeço. É uma mensagem de esperança para quem já não acredita em si mesmo.
O mais belo é perceber que essa justiça não se impõe pela força, mas pela mansidão. Em um mundo que valoriza o poder, Isaías nos apresenta um paradoxo: a verdadeira força está em não esmagar, em não apagar, em não gritar. É a força que se revela no cuidado, na paciência, na persistência. É a força que se faz caminho para os povos, que abre espaço para a esperança.
Talvez seja isso que nos falte: reaprender a escutar o silêncio, a valorizar o gesto pequeno, a reconhecer que a justiça pode nascer de mãos que não se impõem, mas que se estendem. O Servo de Isaías nos convida a olhar para o mundo com outros olhos, a perceber que o frágil pode ser restaurado, que o quase apagado pode voltar a brilhar.
Na crônica dos dias, Isaías 42.1-4 é como um sopro suave que atravessa o ruído. Ele nos lembra que há esperança mesmo quando tudo parece desmoronar. Que a justiça não precisa de espetáculo para ser verdadeira. Que a mansidão pode ser mais forte do que qualquer grito.
E assim seguimos, entre o barulho das ruas e o silêncio do coração, lembrando que há um Servo que não se cansa, que não desanima, que não despreza o frágil. Um Servo que nos ensina que a vida pode ser restaurada, que a justiça pode florescer, que a esperança pode se firmar. Shalom.
No fim, talvez a maior lição seja esta: não precisamos ser grandiosos para transformar. Basta não apagar o pouco que resta, não quebrar o que já está rachado. Basta acreditar que até o pavio fumegante pode voltar a iluminar.
ENTERRADO COM A MÃO PARA FORA
DONO OFERECE RECOMPENSA
CONVITE AOS AMIGOS
ASSISTA – ERA GARUPA DE MOTO