À LA CARTE
Pr. Pedro R. Artigas
Igreja Metodista
Na Semana Santa, a fé acorda mais cedo que todo mundo. Antes mesmo do sol tocar os telhados, ela já está sentada na beira da cama, ajeitando o silêncio como quem arruma a mesa para uma visita importante. E a cidade, mesmo sem perceber, desperta diferente. Há um cuidado nos passos, uma mansidão nas conversas, um respeito que não precisa ser ensinado.
Minha avó dizia que, nessa semana, Deus caminha devagar pelas ruas, observando se ainda lembramos o caminho de volta para Ele. Eu, criança, imaginava um Deus de sandálias gastas, passando a mão nas paredes antigas, ouvindo as orações que escapavam pelas janelas. Hoje, adulto, percebo que talvez ela estivesse certa — não sobre as sandálias, mas sobre a presença. Há algo que muda, mesmo para quem não sabe explicar.
Na quinta-feira, quando o lava-pés ecoa pela igreja, a fé parece ganhar corpo. Não é uma fé de espetáculo, dessas que pedem aplauso. É uma fé humilde, que se ajoelha, que toca o chão, que lembra que grandeza nenhuma existe sem serviço. E eu sempre me emociono com isso: com a ideia de que o sagrado se faz pequeno para ensinar o que realmente importa.
Mas é na sexta-feira que a fé mostra sua força. A cidade inteira parece segurar o fôlego. As portas se fecham mais cedo, as vozes se recolhem, e até o vento sopra com mais cuidado. A procissão sai lenta, carregando não só a cruz, mas também as dores que cada um tenta esconder no resto do ano. E é curioso como, nesse dia, ninguém precisa fingir que está tudo bem. A fé permite que a gente seja humano — frágil, cansado, imperfeito.
Eu sempre observo os rostos. Há quem caminhe por tradição, quem caminhe por promessa, quem caminhe por saudade. Mas todos, de algum jeito, caminham por fé. Uma fé que não é feita de certezas, mas de confiança. Uma fé que não exige explicação, apenas entrega. E talvez seja isso que torna a Sexta-feira Santa tão profunda: ela nos lembra que a dor faz parte da história, mas não é o capítulo final.
Porque o domingo chega. Sempre chega. E chega com uma luz que não é só do sol — é uma luz que nasce de dentro. A fé renasce junto com o dia, abrindo as janelas da alma como quem diz: “Viu? Eu te disse que a esperança não morre”. As crianças correm atrás dos ovos de chocolate, os sinos tocam mais alto, e até quem não foi à igreja sente que algo recomeçou.
A fé tem dessas coisas: ela não precisa ser explicada para ser sentida. Ela se esconde nos detalhes — no cheiro de café do domingo, no abraço que demorou mais do que o costume, na lágrima que cai sem tristeza, só gratidão. A Semana Santa, no fundo, é um lembrete de que a vida é feita de cruzes, sim, mas também de ressurreições. E que nenhuma noite é longa demais para impedir o amanhecer.
Hoje, quando penso na Semana Santa, percebo que ela não é apenas um rito religioso. É um convite. Um convite para desacelerar, para olhar para dentro, para reencontrar aquilo que a correria do ano tenta roubar: a fé. Não a fé dos discursos, mas a fé que mora no silêncio. A fé que sustenta, que consola, que reacende.
E talvez seja por isso que, todos os anos, quando essa semana chega, eu sinto como se Deus realmente estivesse caminhando pela cidade. Não para nos vigiar, mas para nos lembrar — com toda a delicadeza do mundo — que a esperança sempre vence. Shalom.
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