MORREU DUAS SEMANAS DEPOIS
Pr. Pedro R. Artigas
Igreja Metodista
Na pressa dos dias modernos, onde o relógio parece ditar o ritmo da respiração, há uma frase antiga que insiste em atravessar os séculos e repousar sobre os ombros cansados da humanidade: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.” É curioso como palavras tão breves conseguem carregar um universo inteiro de significados. Não se trata apenas de uma declaração religiosa, mas de uma metáfora que toca o coração de qualquer pessoa que já se sentiu perdida, desorientada ou carente de direção.
Imagine a cena: um pastor conduzindo suas ovelhas por campos verdes, atento a cada passo, a cada desvio. Ele não é apenas guia, mas também guardião. Conhece o terreno, sabe onde há perigos escondidos e onde a água fresca corre. A ovelha, por sua vez, não precisa planejar o caminho, nem calcular distâncias. Basta confiar. Essa confiança é o cerne do versículo. Não é a ausência de necessidades, mas a certeza de que, mesmo diante delas, haverá provisão.
Na vida urbana, o pastor pode ser visto como metáfora para aquilo que nos orienta. Alguns encontram esse guia na fé, outros na família, outros ainda em valores que sustentam sua caminhada. O que o salmo nos lembra é que, quando há confiança em algo maior que nós mesmos, o peso da escassez se torna mais leve. “Nada me faltará” não significa que teremos tudo o que desejamos, mas que não nos faltará o essencial para continuar.
Há dias em que o coração se sente como uma ovelha desgarrada. O barulho da cidade, as cobranças do trabalho, as incertezas do futuro — tudo isso pode nos afastar da sensação de cuidado. É nesses momentos que a lembrança do pastor se torna vital. Ele não abandona, não se distrai. Está sempre ali, mesmo quando não o vemos. A vida, afinal, é feita de vales e montanhas. Nos vales, o medo da sombra nos paralisa; nas montanhas, o cansaço nos faz duvidar da chegada. Mas o pastor conhece cada curva do caminho.
O versículo também nos convida a refletir sobre o que realmente significa “faltar”. Vivemos em uma sociedade que confunde necessidade com desejo. Queremos mais do que precisamos, e quando não alcançamos, sentimos que nos falta algo. O salmo nos ensina a redefinir essa medida: se há pão, se há água, se há companhia, então nada nos falta. O pastor não promete luxo, mas sustento. Não promete ausência de problemas, mas presença constante.
Recordo-me de uma tarde chuvosa, em que uma senhora simples, sentada à porta de sua casa, repetia baixinho esse versículo. O telhado gotejava, a rua estava alagada, e ainda assim havia paz em seu olhar. Perguntei-lhe como conseguia manter a serenidade diante de tantas dificuldades. Ela sorriu e respondeu: “Se Ele é meu pastor, sei que não estou sozinha. O resto é detalhe.” Aquela resposta ficou gravada em mim como testemunho vivo da força dessas palavras.
O Salmo 23.1 é, portanto, mais do que uma frase de consolo. É um convite à confiança. É como se dissesse: “Relaxe os ombros, respire fundo, siga em frente. Há alguém cuidando de você.” E essa certeza, mesmo que invisível, transforma o modo como enfrentamos os dias. A vida continua com seus altos e baixos, mas a perspectiva muda. O medo perde força, a ansiedade se acalma, e o coração encontra descanso.
Talvez seja esse o segredo da longevidade do versículo. Ele não envelhece porque fala de uma necessidade humana que nunca desaparece: a de sentir-se cuidado. Em qualquer época, em qualquer cultura, o ser humano busca segurança. O salmo oferece essa segurança em forma de poesia, em forma de promessa. E quem se deixa guiar por ela descobre que, mesmo em meio ao caos, há um fio de paz que sustenta.
Assim, quando o dia parecer pesado demais, vale lembrar: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.” Não como mágica que elimina problemas, mas como certeza que ilumina o caminho. Porque, no fundo, o que mais precisamos não é de abundância, mas de presença. E essa presença, segundo o salmo, nunca nos abandona.
MORREU DUAS SEMANAS DEPOIS
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