NOSSA SENHORA DE FÁTIMA
Pr. Pedro R. Artigas
Igreja Metodista
Lendo minha Bíblia nesta manha de outono, dia ainda frio, encontrei no livro do profeta Oséias no capítulo 6, versículos 1 a 3 um texto que parei para pensar, diz assim: “¹ "Venham, voltemos para o Senhor. Ele nos despedaçou, mas nos trará cura; ele nos feriu, mas sarará nossas feridas.
² Depois de dois dias ele nos dará vida novamente; ao terceiro dia nos restaurará, para que vivamos em sua presença. ³ Conheçamos o Senhor; esforcemo-nos por conhecê-lo. Tão certo como nasce o sol, ele aparecerá; virá para nós como as chuvas de inverno, como as chuvas de primavera que regam a terra. "
Há dias em que a alma acorda como terra rachada. A gente levanta, respira fundo e percebe que algo dentro ficou para trás — talvez a coragem, talvez a fé, talvez apenas o brilho que costumava acompanhar o amanhecer. Foi num desses dias que me lembrei do antigo convite de Oseias: “Tornemos ao Senhor”. Não como quem volta derrotado, mas como quem finalmente entende que não precisa caminhar sozinho.
O cenário era simples: uma manhã nublada, o cheiro de chuva ainda preso às folhas, e eu tentando reorganizar pensamentos que insistiam em se espalhar como papéis ao vento. Havia uma inquietação que não sabia nomear. Talvez fosse cansaço. Talvez fosse saudade de mim mesmo. Talvez fosse só a sensação de que eu tinha me afastado demais do que realmente importa.
Enquanto caminhava, lembrei que o texto de Oseias fala de feridas e curas. “Ele nos despedaçou, mas nos sarará; fez a ferida, e a ligará.” Não é uma frase confortável. Ninguém gosta de admitir que está quebrado. Mas há algo profundamente humano — e profundamente libertador — em reconhecer que certas rachaduras não se resolvem com força, mas com retorno.
E retorno, descobri, não é um movimento brusco. É um passo pequeno, quase tímido. É admitir que a alma precisa de abrigo. É aceitar que a vida, às vezes, nos desmonta para que possamos ser montados de novo, com mais verdade e menos ilusões.
Enquanto pensava nisso, o céu começou a clarear. Não de uma vez, mas em frestas. A luz atravessava as nuvens como quem procura espaço para entrar. E eu percebi que a promessa de Oseias — “Ao terceiro dia nos levantará” — não é sobre cronologia, mas sobre processo. Há dias de queda, dias de silêncio, dias de espera. E há dias de levantar. O terceiro dia chega para cada um em seu próprio tempo.
A chuva fina voltou a cair, quase como um lembrete. Pensei no verso: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor.” É curioso como o texto não fala de conhecer apenas, mas de prosseguir. Como se dissesse: não basta um encontro; é preciso caminhar junto. Não basta um momento de fé; é preciso constância. Não basta um retorno; é preciso permanecer.
E talvez seja isso que mais nos desafia. A gente sabe voltar quando dói, mas nem sempre sabe continuar quando melhora. A dor nos empurra; a cura exige decisão. Prosseguir é um verbo que pede disciplina, humildade e, acima de tudo, desejo.
A chuva parou. O cheiro de terra molhada subiu como um incenso natural, desses que lembram infância, quintal e simplicidade. E eu entendi que o texto de Oseias é, no fundo, sobre esperança. Sobre a certeza de que Deus não se esconde atrás das nuvens. Ele vem “como a alva”, diz o profeta — e a alva nunca falha. Pode atrasar aos nossos olhos, mas não deixa de chegar.
Continuei caminhando, agora com passos mais leves. Não porque todos os problemas tinham se resolvido, mas porque algo dentro de mim tinha se reorganizado. A alma, antes seca, começava a absorver a chuva. E percebi que retornar ao Senhor não é um gesto religioso; é um gesto de sobrevivência. É permitir que Ele faça o que só Ele sabe fazer: ligar feridas, restaurar forças, reacender o que parecia apagado.
No fim da caminhada, olhei para o céu já quase azul. E pensei: talvez a fé seja isso — um retorno constante, um levantar diário, um prosseguir paciente. Talvez a vida seja feita de muitos primeiros, segundos e terceiros dias. E talvez, só talvez, a chuva que cai hoje seja o anúncio de que a terra vai florescer amanhã. Crer e buscar sua Palavra nos faz viver melhor e com mais vida e paz. Shalom.
NOSSA SENHORA DE FÁTIMA
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