sábado, 20 de junho de 2026
CRÔNICA

Quando a água chega à alma

19/06/2026
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Pr. Pedro R. Artigas


Há dias em que a vida parece um copo transbordando. Não importa o quanto você tente beber devagar, o quanto tente segurar firme, a borda sempre cede, e a água escorre pelos dedos como se zombasse da sua tentativa de controle. Naquela manhã, enquanto caminhava pela rua ainda úmida da chuva da noite, percebi que eu mesmo era esse copo. E que, de algum modo, as águas tinham subido mais do que eu imaginava.
O céu estava cinza, mas não era o tipo de cinza que anuncia tempestade. Era um cinza cansado, como se tivesse passado a noite inteira acordado, pensando nos próprios problemas. Caminhei devagar, sentindo o peso de algo que eu não sabia nomear. Talvez fosse cansaço. Talvez fosse medo. Talvez fosse só a vida, essa velha senhora que às vezes nos abraça e às vezes nos empurra para dentro de poças profundas.
Enquanto andava, lembrei-me de um trecho antigo, daqueles que atravessam séculos e ainda assim parecem escritos para o dia de ontem. Falava de alguém que se sentia afundando, atolado num lamaçal onde não havia onde firmar os pés. E eu entendi. Não era sobre água, nem sobre lama. Era sobre a sensação de perder o chão — e isso, todos nós conhecemos.
A verdade é que ninguém afunda de uma vez. Primeiro vem a maré baixa: pequenas preocupações, pequenos atrasos, pequenas frustrações. Depois, sem aviso, a maré sobe. E quando percebemos, já estamos com a água na cintura, tentando manter a cabeça erguida enquanto o mundo insiste em nos puxar para baixo. O mais curioso é que, mesmo assim, seguimos andando. Talvez por teimosia. Talvez por esperança. Talvez porque, no fundo, sabemos que a água não é o fim.
Passei por uma senhora que varria a calçada. A vassoura empurrava folhas molhadas, e cada movimento parecia um esforço desnecessário. Mas ela sorria. Um sorriso simples, quase tímido, como quem sabe que a vida é pesada, mas ainda assim vale a pena varrer um pedaço dela. Aquele sorriso me atingiu como um lembrete: mesmo quando a água sobe, ainda há quem encontre motivo para continuar limpando o caminho.
Continuei andando, e percebi que o lamaçal do qual eu tentava escapar não estava na rua — estava dentro de mim. Era feito de dúvidas, de expectativas frustradas, de perguntas sem resposta. Era feito de dias em que tudo parece demais e de noites em que o silêncio pesa mais do que o barulho. E, no entanto, havia algo curioso naquele lamaçal: ele não me engolia. Apenas me lembrava de que eu era humano.
Às vezes, o fundo do poço não é um castigo, mas um ponto de partida. É ali, quando a água chega à alma, que descobrimos que ainda podemos pedir ajuda. Que ainda podemos levantar a mão, mesmo que trêmula, e dizer: “Ei, eu estou aqui. Não consigo sozinho.” E isso não é fraqueza. É coragem.
Parei na praça. O banco estava frio, mas me sentei mesmo assim. Observei as crianças correndo, indiferentes ao peso do mundo. Elas não pensavam em contas, em prazos, em expectativas. Apenas corriam. E percebi que talvez a vida seja isso: correr quando dá, caminhar quando é preciso, parar quando o corpo pede. E, acima de tudo, não ter vergonha de admitir que às vezes estamos cansados.
O céu começou a abrir. Um fiapo de azul apareceu entre as nuvens, tímido, mas presente. E eu sorri. Não porque meus problemas tinham desaparecido, mas porque percebi que eles não eram maiores do que eu. A água ainda estava alta, mas eu respirava. E enquanto houver ar, há caminho.
Levantei-me do banco, ajeitei a mochila e segui. Não mais como quem afunda, mas como quem aprende a nadar. Porque, no fim das contas, o lamaçal não é o fim — é só o lugar onde descobrimos que precisamos de firmeza. E a firmeza, às vezes, vem de dentro. Às vezes, vem de cima. Mas sempre chega, a isso podemos dar o nome de sentir a presença de Deus junto a nós. Shalom.