CARRO X CAMINHÃO
Pr. Pedro R. Artigas
A manhã nasceu silenciosa naquela pequena cidade do interior, dessas em que o vento parece carregar recados antigos. No banco da praça, um senhor de cabelos brancos lia sua Bíblia com a serenidade de quem já viu muitas voltas da vida. Ao meu lado, o murmúrio das folhas parecia acompanhar sua leitura. Ele levantou os olhos, sorriu e disse: “Hoje estou pensando em Provérbios 24:18: “Não sejas testemunha sem causa contra o teu próximo; e não enganes com os teus lábios”.
A frase ecoou em mim. O versículo, que adverte para que não nos alegremos com a queda do inimigo, sempre me pareceu um convite à maturidade. Não é apenas uma regra moral; é um espelho que revela o que carregamos no coração. O senhor fechou o livro devagar, como quem guarda um tesouro, e continuou: “A gente acha que vence quando o outro perde, mas isso é só ilusão.”
Fiquei ali, observando o movimento da rua. Um menino corria atrás de uma bola, tropeçava, levantava, ria. A vida seguia seu curso, indiferente às pequenas guerras que travamos dentro de nós. E foi nesse cenário simples que o versículo ganhou corpo. Porque a verdade é que todos nós, em algum momento, já sentimos aquela pontinha de satisfação ao ver alguém que nos feriu enfrentar dificuldades. É humano. Mas é justamente aí que o texto bíblico nos cutuca: o que fazemos com essa sensação?
Provérbios 24:18 nos lembra que o coração não foi feito para armazenar vingança. Quando celebramos a queda do outro, mesmo que esse outro tenha nos machucado, nos tornamos prisioneiros de uma lógica que nunca termina. É como beber água salgada achando que vai matar a sede. A alegria pela derrota alheia não alimenta; corrói.
O senhor da praça, com sua voz calma, contou que na juventude teve um desafeto no trabalho. “Eu queria ver o sujeito tropeçar”, confessou. “E quando tropeçou, eu senti aquele gosto amargo de vitória. Mas logo percebi que não era vitória coisa nenhuma. Era só amargura disfarçada.”
Essa imagem ficou comigo. Quantas vezes confundimos vingança com justiça, ou satisfação com paz? O versículo nos alerta que Deus observa o coração, e que nossa alegria diante da desgraça alheia não passa despercebida. Não porque Ele queira nos punir, mas porque sabe que esse tipo de sentimento nos afasta daquilo que realmente nos faz crescer.
A crônica da vida é cheia de encontros inesperados. Enquanto eu refletia, uma senhora passou distribuindo sorrisos e cumprimentos. Ela parecia carregar uma leveza rara. O senhor da praça comentou: “Ela já sofreu muito, mas nunca desejou mal a ninguém. Por isso caminha leve.” E eu entendi: a leveza não nasce da ausência de problemas, mas da ausência de rancor.
Provérbios 24:18, então, se transforma em convite. Não para que sejamos ingênuos, nem para que ignoremos o mal que nos fazem, mas para que não deixemos que esse mal determine quem nos tornamos. A verdadeira força não está em ver o inimigo cair, mas em seguir adiante sem permitir que a queda dele nos molde.
A vida, com sua ironia suave, costuma nos mostrar que todos tropeçam. Hoje é o outro; amanhã somos nós. E se desejamos misericórdia quando caímos, por que negar ao outro aquilo que esperamos receber?
Quando me despedi do senhor, ele disse: “A gente só descansa de verdade quando aprende a não torcer pela queda de ninguém.” Caminhei pela rua sentindo que aquela frase era uma extensão do versículo. Talvez seja isso: Provérbios 24:18 não é apenas uma advertência; é uma promessa de liberdade.
Porque, no fim, quem não se alegra com a queda do inimigo descobre algo precioso: que o coração, quando não carrega vingança, encontra espaço para a paz. E a paz, essa sim, é vitória verdadeira.
CARRO X CAMINHÃO
DINHEIRO NA HORA
FICOU PRESO ÀS FERRAGENS
ACIDENTE NA RODOVIA