sábado, 18 de julho de 2026
CRÔNICA

O Espírito que Sustenta - Pr. Pedro R. Artigas

17/07/2026
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O Espírito que Sustenta

Pr. Pedro R. Artigas

O espírito do homem pode suportar a sua enfermidade, já dizia Provérbios 18.14: “O espirito do homem susterá sua enfermidade, mas ao espírito abatido, quem o suportará? Uma frase curta, mas que carrega o peso de quem já viu muita gente tombar não pelo corpo, mas pelo que se passa lá dentro, naquele território invisível onde ninguém toca, mas tudo acontece. E foi justamente isso que me veio à mente naquela manhã em que encontrei seu Antônio sentado na praça, encarando o chão como quem tenta decifrar um enigma antigo.

Ele sempre foi desses homens que parecem feitos de tronco de árvore: firmes, resistentes, com raízes profundas. A cidade inteira conhecia sua história — agricultor desde menino, acostumado a lidar com sol, chuva, geada e o imprevisível da terra. Mas naquele dia, havia algo diferente. O corpo estava ali, inteiro, mas o espírito… esse parecia ter saído para caminhar sem ele.

Sentei-me ao seu lado. Não disse nada. Aprendi que algumas dores não gostam de perguntas, preferem silêncio. Ele respirou fundo, como quem tenta puxar de volta um pedaço de si que ficou perdido no caminho.

— A gente aguenta muita coisa, sabe? — disse, sem tirar os olhos do chão. — Mas quando o espírito fraqueja… o corpo vira só peso.
A frase caiu entre nós como uma pedra no lago, abrindo círculos que se espalhavam devagar. Lembrei do provérbio. Lembrei de quantas vezes vi pessoas fortes desmoronarem por dentro enquanto o mundo insistia em olhar apenas para o que era visível. Lembrei também de outras que, mesmo com o corpo falhando, mantinham uma chama acesa que parecia desafiar qualquer diagnóstico.

Seu Antônio continuou:
— A doença da minha esposa não é o que me derruba. É o medo de não conseguir ser forte por ela. É isso que me quebra.

Ali estava a verdadeira enfermidade: não o que atingia o corpo dela, mas o que ameaçava o espírito dele. E é curioso como o espírito, esse elemento tão abstrato, pode ser mais determinante que qualquer músculo. Quando ele está firme, a gente enfrenta tempestade, perda, dor, incerteza. Quando ele se dobra, até o simples ato de levantar da cama vira batalha.

Ficamos ali por alguns minutos, observando o movimento da praça. Crianças correndo, vendedores chamando clientes, pássaros disputando migalhas. A vida seguia, indiferente às dores de cada um. E talvez fosse justamente essa indiferença que lembrava seu Antônio de que ele ainda fazia parte de tudo aquilo, mesmo que por dentro estivesse em ruínas.

— Sabe o que é estranho? — ele disse. — Eu sempre achei que a força vinha do corpo. Hoje vejo que o corpo só acompanha o que o espírito decide.

A frase tinha a simplicidade dos sábios. E me fez pensar em quantas vezes tentamos resolver dores internas com soluções externas: remédios, distrações, correria. Mas o provérbio é claro: o espírito sustenta a enfermidade. Ele é o alicerce. Sem ele, tudo desaba.

Olhei para seu Antônio e percebi que, apesar da tristeza, havia ali uma centelha. Pequena, mas viva. Talvez fosse amor. Talvez fosse responsabilidade. Talvez fosse fé. Seja o que for, era suficiente para impedir que ele se entregasse ao vazio.

— O senhor não precisa ser forte o tempo todo — eu disse. — Só precisa não desistir.

Ele finalmente levantou o olhar. Havia lágrimas, mas também havia decisão.

— É… acho que o espírito ainda não me abandonou. Só cansou um pouco.

E naquele instante, percebi que o provérbio não fala de um espírito invencível, mas de um espírito que resiste. Que se cansa, sim, mas não se entrega. Que pode vacilar, mas não desaparece. Que encontra força em lugares inesperados: numa conversa, num gesto, numa lembrança, numa fé que insiste em permanecer.

Seu Antônio levantou-se devagar, ajeitou o chapéu e disse:

— Vou pra casa. Ela precisa de mim. E eu… preciso dela.

E foi embora, caminhando com passos que ainda carregavam peso, mas também propósito. O corpo seguia lento, mas o espírito — esse já tinha voltado a caminhar ao lado dele.

Fiquei ali por mais alguns minutos, pensando em como cada um de nós carrega suas próprias enfermidades, visíveis ou não. E como, no fim das contas, o que nos sustenta não é a força física, nem a ausência de problemas, mas aquela chama interna que insiste em não apagar.

Provérbios 18.14 não é apenas uma observação antiga. É um lembrete atual: cuide do espírito. Ele é o que mantém o corpo de pé quando a vida tenta derrubá-lo. Shalom.