MELHOR IDADE
Pr. Pedro R. Artigas
Na pequena cidade, o relógio da praça marcava sempre o mesmo compasso: lento, quase preguiçoso. Dona Helena, sentada no banco de madeira gasto pelo tempo, observava os ponteiros como quem vigia a própria vida. Aos 72 anos, aprendera que o tempo não é inimigo, mas mestre. E, naquele dia, lembrava-se das palavras que ouvira no culto da noite anterior: “Vocês precisam perseverar, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcancem o que ele prometeu”, palavras escritas em Hebreus capítulo 10, versículo 36.
Helena sorriu. Perseverar. Palavra pesada, mas cheia de esperança. Pensou em seu marido, que partira cedo demais, e em como precisou perseverar na solidão. Pensou nos filhos, que seguiram caminhos diferentes, e em como perseverou em orações silenciosas, mesmo quando parecia que Deus não ouvia. Pensou na própria saúde, frágil, e em como perseverava em cada manhã, levantando-se apesar das dores.
Enquanto refletia, um menino se aproximou. Era João, vizinho curioso, sempre com perguntas maiores que sua idade. “Dona Helena, por que a senhora vem aqui todo dia, mesmo sem nada para fazer?” Ela olhou para ele com ternura. “Porque esperar também é fazer, meu filho. É na espera que a gente aprende a confiar.”
João franziu a testa. “Mas não é chato esperar?” Helena riu. “É, às vezes. Mas a espera é como plantar uma semente. Você não vê nada por dias, talvez semanas. Mas, se perseverar, um dia o broto aparece. E quando aparece, você entende que cada minuto de espera tinha sentido.”
O menino ficou pensativo. “Então Deus também faz a gente esperar?” Helena assentiu. “Sim. Ele sabe que a promessa só tem valor quando aprendemos a confiar no processo. Se recebêssemos tudo de imediato, não haveria crescimento. A perseverança é o solo onde a fé floresce.”
Naquele instante, o sino da igreja tocou. Helena fechou os olhos e lembrou-se de sua juventude. Quantas vezes quis desistir? Quando o marido perdeu o emprego, quando a mesa ficou vazia, quando a vida parecia injusta. Mas sempre havia uma voz suave dentro dela: “Continue. Não pare agora.” E, de alguma forma, a promessa se cumpria — não como ela imaginava, mas sempre de maneira suficiente.
João, inquieto, perguntou: “E se a promessa nunca chegar?” Helena respirou fundo. “Ah, meu filho, às vezes confundimos promessa com desejo. Queremos coisas que não são para nós. Mas a promessa de Deus é maior: é vida, é paz, é esperança. Mesmo que não venha como esperamos, ela sempre chega. Porque Ele não falha.”
O menino sorriu, como quem guarda um segredo novo. “Então perseverar é acreditar que Deus sabe o que faz?” Helena acariciou seus cabelos. “Exatamente. É caminhar mesmo sem ver o fim da estrada. É confiar que, ao final, haverá recompensa.”
O sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja. Helena levantou-se devagar, apoiando-se na bengala. “Vamos, João. A vida é feita de passos pequenos, mas firmes. Cada passo é um ato de perseverança.” O menino a acompanhou, e juntos seguiram pela rua estreita, como quem aprende que o tempo não é apenas espera, mas promessa em construção.
Naquela noite, Helena escreveu em seu diário: “Hoje ensinei a João que perseverar é viver com fé. Mas, na verdade, foi Deus quem me lembrou disso outra vez. A promessa não é apenas o que espero receber, mas o que já recebo a cada dia: força para continuar.”
E assim, entre o silêncio da praça e o brilho do entardecer, a crônica da perseverança se repetia. Porque, como dizia Hebreus, só quem persevera alcança o que foi prometido. E Helena sabia: a promessa já estava em cada amanhecer.
MELHOR IDADE
EDUCAÇÃO EM ALTA
DEPOIS SE ENTREGOU NA DELEGACIA
MORA NO CENTRO DA CIDADE