sábado, 22 de agosto de 2026
CRÔNICA

A Casa das Muitas Moradas

21/08/2026
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Pr. Pedro R. Artigas


Há dias em que a vida parece estreita demais. A gente acorda com o peito apertado, como se o mundo tivesse encolhido durante a noite. As ruas parecem mais curtas, os compromissos mais pesados, e até o silêncio carrega um certo peso. Foi num desses dias que me lembrei das palavras antigas: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”, que Jesus fala em João capítulo 14. versículo 2.
Não sei exatamente por que esse verso me veio à memória. Talvez porque eu estava sentado na varanda, olhando o céu sem conseguir decidir se ele estava bonito ou apenas distante. O vento soprava de leve, mas não o suficiente para mover o que eu sentia por dentro. E então, como quem encontra uma chave esquecida no bolso, a frase apareceu.
A casa é grande. E eu, tão pequeno naquele instante.
Fiquei pensando nas casas que já habitei. A primeira tinha cheiro de café e de pão quente. Minha mãe acordava cedo, e o barulho das panelas era o despertador mais carinhoso que já tive. Era uma casa simples, mas parecia enorme, porque nela cabiam meus sonhos de criança, meus medos bobos e minhas descobertas. Cada canto era uma aventura, cada porta escondia um mistério.
Depois vieram outras casas. Algumas maiores, outras menores. Algumas cheias de gente, outras silenciosas demais. Em cada uma delas, eu deixei um pouco de mim e levei um pouco delas. Mas nenhuma delas era tão grande quanto a casa que Jesus descreve em João 14.2 — uma casa que não se mede em metros quadrados, mas em possibilidades.
Enquanto eu pensava nisso, percebi que talvez o problema não fosse o mundo ter encolhido, mas eu ter esquecido que existe espaço. Espaço para recomeçar, para respirar, para errar e tentar de novo. Espaço para ser acolhido quando tudo parece desabar.
A casa das muitas moradas não é apenas um lugar futuro; é também uma metáfora para o agora. É como se Deus dissesse: “Há espaço para você, mesmo quando você acha que não há.” E isso muda tudo.
Lembrei de uma amiga que sempre dizia que se sentia deslocada, como se nunca coubesse em lugar nenhum. Ela mudava de cidade, de emprego, de rotina, mas a sensação persistia. Um dia, conversando comigo, ela confessou: — Parece que eu vivo tentando entrar em casas onde não há quarto pra mim.
Na época, eu não soube responder. Hoje, talvez dissesse que ela estava procurando nas casas erradas. Porque há uma casa onde sempre há espaço — e não é feita de tijolos, mas de presença. Uma casa onde ninguém precisa disputar lugar, onde ninguém é hóspede temporário.
Enquanto o sol começava a descer atrás das árvores, senti o vento mudar. Não ficou mais forte, mas ficou mais leve, como se tivesse entendido o que eu estava pensando. E eu, que antes estava apertado por dentro, comecei a me expandir.
A casa é grande. E eu também posso ser.
Talvez seja isso que João 14.2 tenta nos lembrar: que a vida não é um corredor estreito, mas um conjunto de portas abertas. Que há moradas para quem está cansado, para quem está perdido, para quem está celebrando, para quem está chorando. Moradas para quem acredita e para quem ainda está aprendendo a acreditar.
E, principalmente, moradas para quem acha que não merece nenhuma.
Fechei os olhos por um instante e imaginei essa casa. Não como um palácio celestial, mas como um lugar onde finalmente cabem todas as versões de mim: o que fui, o que sou, o que ainda estou tentando ser. Um lugar onde minhas falhas não me expulsam e minhas dúvidas não me envergonham.
Quando abri os olhos, o mundo já não parecia tão pequeno. As ruas continuavam curtas, os compromissos continuavam pesados, o silêncio continuava carregado — mas eu já não era o mesmo. Porque agora eu lembrava: há espaço. E, se há espaço, há esperança. A casa é grande. E eu tenho uma morada nela. Shalom.