NOTA DE FALECIMENTO
Pr. Pedro R. Artigas
Naquela manhã, quando o sol ainda hesitava em atravessar as frestas da janela, Dona Amélia acordou com a sensação de que algo estava diferente. Não era dor, não era pressa, não era medo. Era outra coisa — uma espécie de silêncio cheio, como se o mundo estivesse respirando mais devagar. Ela ficou ali, deitada, tentando decifrar o que era aquilo. Aos 78 anos, já tinha aprendido que algumas respostas não chegam correndo; chegam sentando-se ao lado da gente, com calma.
Levantou-se, preparou o café e abriu a porta da frente. A rua estava vazia, exceto pelo cachorro do vizinho, que sempre parecia saber mais da vida do que qualquer pessoa. Sentou-se na cadeira de balanço e ficou observando o movimento das folhas. Foi então que percebeu: a eternidade estava ali, bem diante dela, misturada ao cheiro de café e ao canto dos bem-te-vis.
Não era a eternidade como ela imaginava quando era jovem — aquela coisa distante, brilhante, quase inacessível. Era outra eternidade, mais simples, mais humana. Uma eternidade que cabia dentro de um instante. E, sem entender muito bem por quê, lembrou-se de uma frase que ouvira na igreja muitos anos antes: vida eterna não é sobre viver para sempre, é sobre conhecer Deus.
Ela sorriu. Talvez fosse isso que estava sentindo: um tipo de conhecimento que não vinha dos livros, mas da convivência. Como quando se conhece alguém tão bem que basta ouvir o jeito que a pessoa fecha a porta para saber como ela está. Talvez conhecer Deus fosse assim — perceber Sua presença nas pequenas coisas, nos detalhes que quase ninguém nota.
Enquanto pensava nisso, viu seu neto atravessando a rua com passos apressados. Lucas tinha 17 anos e carregava no rosto aquela mistura de urgência e incerteza que só os adolescentes conseguem ter. Ele entrou sem bater, como sempre.
— Vó, posso ficar um pouco aqui? — perguntou, largando a mochila no chão.
— Pode, meu filho. O que houve?
Ele não respondeu de imediato. Sentou-se ao lado dela e ficou olhando para o horizonte, como se estivesse procurando alguma coisa que não sabia nomear. Depois de alguns minutos, falou:
— Às vezes eu sinto que nada faz sentido. Que tudo é rápido demais. Que eu não sei quem eu sou.
Dona Amélia respirou fundo. Não era a primeira vez que ouvia algo assim, mas naquele dia, com aquela sensação de eternidade pairando no ar, suas palavras vieram diferentes.
— Lucas, você já reparou que a vida fica mais leve quando a gente conhece alguém de verdade? Quando a gente confia? Quando a gente sabe que não está sozinho?
Ele assentiu, sem entender completamente.
— Pois é. A vida eterna é isso — disse ela, lembrando-se de João 17.3: “e a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. — Não é sobre viver muito. É sobre viver perto. Perto de Deus. Perto da verdade. Perto do amor. Quando a gente conhece Deus, a vida deixa de ser só corrida. Ela ganha profundidade.
Lucas ficou em silêncio. Dona Amélia sabia que ele estava tentando encaixar aquelas palavras em algum lugar dentro dele. E não tinha pressa. A eternidade, afinal, não tem pressa.
— Vó… você sente Deus? — ele perguntou, com a sinceridade de quem não sabe se está fazendo a pergunta certa.
Ela sorriu.
— Sinto. Às vezes no silêncio, às vezes no barulho. Às vezes quando estou sozinha, às vezes quando estou com você. Deus não é difícil de encontrar, meu filho. A gente é que vive distraído.
O cachorro do vizinho latiu, como se concordasse. O vento mudou de direção. E Lucas encostou a cabeça no ombro da avó, como fazia quando era pequeno.
Naquele instante, Dona Amélia teve certeza: a eternidade tinha realmente batido à sua porta naquela manhã. Não com trombetas, não com luzes, não com milagres espetaculares. Mas com a simplicidade de um neto buscando sentido e de uma avó oferecendo presença.
E ela entendeu, finalmente, que conhecer Deus não era um evento, mas um encontro — desses que acontecem no meio da vida, entre um gole de café e um abraço inesperado.
A eternidade, afinal, cabe dentro de um instante. E naquele instante, ela estava ali, sentada na varanda, respirando junto com eles. Shalom.
NOTA DE FALECIMENTO
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CARRO PAROU ENTRE ÁRVORES