DOIS CONDUTORES SEM CNH – UM TENTOU FUGIR
Pr. Pedro R. Artigas
O relógio da sala marcava seis da tarde quando o rangido seco da porta anunciou a chegada de Miguel. Trazia nos ombros o peso cinzento de mais um dia exaustivo e, nos olhos, a hesitação de quem não sabe se encontrou um refúgio ou apenas mais um campo de batalha. Helena, do fundo da cozinha, apenas ouviu os passos lentos. Não houve cobranças apressadas, perguntas acusatórias sobre as contas atrasadas nem o interrogatório cansativo sobre as promessas não cumpridas. Ela apenas serviu duas xícaras de café fresco e deixou que o aroma quente fizesse o seu trabalho inicial de desarmar os espíritos.
A convivência diária tem a capacidade peculiar de expor as arestas mais afiadas de qualquer ser humano. O amor, ao contrário do que sugerem os romances distantes da realidade, raramente se parece com uma tempestade constante de paixão; na maioria das vezes, ele se assemelha muito mais ao ato paciente e minucioso de cuidar de uma planta sensível no meio da ventania. Tudo sofre, ou na tradução mais fiel da alma, tudo desculpa e protege. Significa estender um manto discreto sobre as imperfeições alheias, acolhendo as falhas sem transformá-las em um arsenal para a próxima discussão. Helena sabia perfeitamente onde Miguel errara naquela semana, mas compreendia que massacrar quem já se sente derrotado não é amor, é apenas vaidade fantasiada de justiça.
Enquanto ele bebericava o líquido negro, mantendo o olhar fixo na janela que dava para o pequeno quintal, Helena assentou-se à sua frente. Havia entre os dois uma cumplicidade antiga, tecida ao longo dos anos na poeira dos dias comuns. Tudo crê. Amar é recusar categoricamente o cinismo. Em um mundo habituado à suspeita constante, decidir acreditar na essência do outro é uma revolução silenciosa. Ela olhou para as mãos calejadas do marido e enxergou a honestidade do seu empenho, mesmo quando as circunstâncias insistiam em produzir maus resultados. Acreditar não é fechar os olhos para os fatos, mas enxergar além das aparências imediatas, apostando na integridade da intenção que habita no peito de quem amamos.
O silêncio da casa era quebrado apenas pelo murmúrio distante da cidade. Miguel finalmente suspirou, libertando o peito da opressão acumulada. Falou sobre a incerteza do amanhã, sobre os projetos interrompidos e o temor paralisante do fracasso. Helena escutou cada palavra com a serenidade de quem aprendeu a não ter pressa. Tudo espera. A esperança que brota do afeto autêntico não é uma ilusão ingênua, mas a convicção firme de que as estações mudam. Há invernos rigorosos em que os galhos parecem secos e a terra se mostra estéril, mas quem ama sabe guardar as sementes sob a geada. Esperar é conceder ao outro o tempo necessário para germinar, amadurecer e recomeçar, sem impor a tirania do ritmo próprio.
A noite cobriu completamente a casa com seu manto escuro. Não resolveram todos os problemas da vida naquela mesa simples, nem as dívidas desapareceram por encanto. Contudo, a carga já não pesava do mesmo jeito. Tudo suporta. A capacidade de permanecer de pé quando a tempestade desaba é o alicerce mais profundo e resistente da vida a dois. Suportar não é resignação passiva nem aceitação do sofrimento inútil; é a força oculta das raízes profundas que se prendem à rocha enquanto o vento tenta derrubar a estrutura. É a decisão diária e consciente de não ir embora quando a caminhada se torna íngreme.
Ao recolher as xícaras vazias, Miguel segurou a mão de Helena por alguns segundos. Não houve frases grandiosas ou promessas cênicas. O amor verdadeiro habita na delicadeza do cotidiano, na capacidade de acolher o outro por inteiro, com suas dores, fragilidades e esperanças. Naquela cozinha iluminada por uma luz amarelada, a sabedoria antiga se fazia vida presente. O amor permanecia intacto, quieto e forte, sustentando a vida sem precisar de nenhum alarde.
Esta palavra foi baseada no texto de 1 Coríntios capítulo 13, versículo 7: “o amor tudo sofre, tudo crê , tudo espera, tudo suporta.” Shalom.
DOIS CONDUTORES SEM CNH – UM TENTOU FUGIR
INUSITADO – SE DEU MAL
REGIÃO DE UMUARAMA – MUITAS VÍTIMAS
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