FILHO TINHA BEBIDO
A promissora molécula polilaminina reacendeu a esperança de reabilitação e transformou radicalmente a rotina de Fabiane Azevedo, moradora de Cruzeiro do Oeste (49 km de Goioerê). Após uma tragédia que a deixou paraplégica, ela agora celebra conquistas antes tidas como inalcançáveis pela medicina tradicional.
A jornada de superação de Fabiane começou após um pesadelo brutal. No dia 25 de dezembro de 2025, em pleno dia de Natal, a moradora de Cruzeiro do Oeste sofreu uma grave agressão por arma branca (um crime enquadrado como tentativa de feminicídio) por parte de seu companheiro.
O golpe com a faca atingiu sua medula na altura da vértebra T1 (primeira vértebra torácica, localizada na região superior das costas, logo abaixo do pescoço). O traumatismo devastador tirou-lhe instantaneamente toda a mobilidade e a sensibilidade do corpo, paralisação que se estendia da clavícula até as extremidades inferiores.
Após o impacto inicial, Fabiane e os médicos confirmaram as graves consequências daquela agressão, entre elas, a paraplegia. Nas semanas seguintes ela percebeu que não conseguia sequer manter-se sentada sozinha. E, além disso, que sua vida tinha passado a depender integralmente do suporte de terceiros para realizar até mesmo as tarefas mais básicas do dia-a-dia.
POLILAMININA - A história de Fabiane começou a mudar de rumo no dia 1º de maio de 2026, quando passou por um procedimento inovador e ainda experimental. Ela se tornou o primeiro caso registrado no Brasil a receber a aplicação de polilaminina em decorrência de lesão medular provocada por arma branca. O procedimento aconteceu no Hospital do Trabalhador, em Curitiba.
A substância, desenvolvida por cientistas brasileiros em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e o laboratório Cristália, atua de forma surpreendente no tecido nervoso afetado. Em termos didáticos, a polilaminina funciona como uma verdadeira “ponte celular” no ponto de interrupção da medula.
A proteína reorganizada cria um caminho físico e biológico pelo qual os impulsos e comandos disparados pelo cérebro conseguem atravessar a área lesionada. Dessa forma, viabilizam a regeneração dos circuitos neurais e estimulam a reabilitação gradual dos movimentos e percepções corporais.
COMO FOI: “Quando eu recebi a polilaminina, fiquei cerca de três semanas em Curitiba fazendo fisioterapia intensiva e acompanhamento constante. A doutora me explicou que o medicamento cria uma ponte onde houve a interrupção. Os comandos do cérebro passam por ali como se fosse um tobogã, enviando os sinais de volta”, disse.
“É um tratamento que veio para inovar o mundo, e ver que está funcionando comigo, sentindo na pele cada evolução, é extremamente gratificante”, relata Fabiane, emocionada.
A agilidade para ingressar no estudo experimental exigiu uma mobilização contra o tempo. Graças à articulação da família, apoio de lideranças locais como o então Secretário Estadual de Saúde, Beto Preto, e a vereadora Rosy Anne Bertoco, de Cruzeiro do Oeste, além da avaliação decisiva de uma neurocirurgiã de Maringá, a documentação chegou ao laboratório Cristália.
A autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) saiu em apenas duas semanas, permitindo que a aplicação ocorresse cerca de três meses e meio após o trauma.
Após o período de observação e fisioterapia intensiva na capital paranaense, Fabiane retornou para Cruzeiro do Oeste e estabeleceu sua rotina diária na Clínica de Fisioterapia Dr. Décio. O acompanhamento médico demonstrou que a polilaminina promoveu uma regressão notável no nível do bloqueio neurológico.
Nos exames de atualização realizados em Curitiba há cerca de 3 meses, a lesão (que originalmente travava o corpo na altura da vértebra T1) havia descido para a região da T8 (parte média da coluna torácica).
GANHOS DIÁRIOS - Entretanto, a percepção diária de Fabiane aponta para ganhos ainda maiores. A paciente já recuperou totalmente a força e a sensibilidade nos braços e axilas — antes insensíveis até mesmo ao toque de agulhas. Hoje, ela consegue se posicionar, firmar o tronco na barra de apoio durante a sessão de fisioterapia sem ajuda de terceiros e comanda funções viscerais cruciais.
“Da clavícula para baixo eu não sentia nada. Hoje sinto até o quadril. A sensação de bexiga está voltando totalmente. Em uma semana eu não sentia a região do meu umbigo; na outra, quando minha irmã foi fazer a massagem, eu já senti a pressão e avisei que estava apertando. O corpo está se fortalecendo de uma semana para outra, parece que está se curando de dentro para fora”, comemora Fabiane.
Outra vitória fundamental trazida pela polilaminina e pelo progresso do tratamento foi a eliminação da sonda de demora (bolsa coletora de urina), que causava frequentes infecções de repetição e internações hospitalares.
Hoje, com a melhora do quadro clínico geral e a orientação médica, a rotina adota o cateterismo de alívio, livrando a paciente do incômodo constante do equipamento e devolvendo sua autoestima.
REDE DE AFETO: Por trás da garra demonstrada no consultório e nos exercícios, existe um alicerce familiar comovente. Fabiane é mãe de três filhos: Davi (12 anos), Helena (10 anos) e a pequena Aurora (2 anos). A dinâmica da casa em Cruzeiro do Oeste envolve cooperação, carinho e esperança renovada.
Durante os dias úteis, entre 6h e 18h, a cunhada Edieli da Silva Pereira Azevedo atua como cuidadora e companheira inseparável. Edieli presenciou desde o estado mais frágil da paciente até os momentos de vibração e lágrima de emoção.
“No começo a Fabiane estava totalmente ‘mole’, sem sustentação nenhuma. A recuperação está sendo maravilhosa. Dias atrás eu dei um leve toque no quadril dela, ela sentiu imediatamente e pediu para eu repetir só para ter certeza. Foi uma alegria emocionante. Eu tenho convicção em Deus de que ela vai voltar a andar perfeitamente”, conta Edieli.
As crianças também desempenham papel central nessa corrente de otimismo. A filha Helena ajuda com algumas tarefas domésticas, busca água e frequentemente acompanha as sessões de reabilitação. “Estou muito feliz vendo a recuperação da minha mãe”, diz a garota de 10 anos.
Enquanto os filhos mais velhos se revezam nos cuidados e na atenção à mãe, a pequena Aurora conta com o suporte da creche municipal, garantindo a tranquilidade necessária para o cronograma de exames e terapias. (Reportagem e fotografia: Jaqueline Mocellin/OBemdito).
FILHO TINHA BEBIDO
SAÚDE NAS ESCOLAS
EM APARTAMENTO DE BAIRRO NOBRE
RECEBERAM DIÁRIAS